Mas mostre outras coisas

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Barril Festiva no MITsp – Mostra Internacional de Teatro
Crítica de Tão Pouco Tempo – Dir. Rabin Mroué
Por Paulo Raviere   

     Um dos clichês dos workshops de redação criativa é a sucinta recomendação “show, don’t tell” – mostre, não conte. Ou seja, se você quer dizer que Ignatius dirige mal, em vez simplesmente contá-lo – “Ignatius dirige mal” – seria mais eficiente para a história envolver o personagem numa situação que mostrasse isso ao leitor – “Ignatius entrou na contramão sem perceber e bateu o carro num poste”. Não entraremos nos méritos e deméritos da orientação. Se aplicada a uma montagem teatral, ela não faz muito sentido, pois, inevitavelmente, a peça é mostrada. Volta e meia conta-se algo – muitas das mortes célebres da tragédia clássica são na verdade notícias –, mas teatro é ação. Mesmo parados, os atores sobem no palco para fazer alguma coisa.

     A peça Tão pouco tempo – apresentada na Mostra internacional de teatro de São Paulo – joga com isso. Escrita e dirigida pelo libanês Rabin Mroué, ela conta a história de Deeb Al Asmar, mártir ficcional da interminável guerra contra Israel. Após sua morte, seu corpo é entendido como um símbolo da luta, e uma estátua é levantada em  tributo. Alguns anos mais tarde, porém, para o pasmo e decepção de quem lhe dirigiu homenagens póstumas, Asmar volta a Beirute sem um arranhão. Continuaria um símbolo? A história do mártir-vivo obcecado por estátuas prosegue como um conto fantástico, com ecos de Joseph K. e do Coronel Chabert de Balzac. E assim narra-se história do Líbano, da década de 70 às primaveras de 2011. O estilo quase sempre documental contrasta com o absurdo.

     A grande questão, no entanto, é que toda a história é contada pela atriz Lina Majdalanie, única pessoa a subir no palco. Na verdade, para a maioria dos presentes, ela foi lida, uma vez que é narrada em árabe e traduzida em legendas. O texto também é linguagem cênica. Na metade da história, uma prolongada (talvez até demais) cronologia sobre Asmar é apresentada em tabuletas escritas em árabe (e para nós, mais uma vez, em legendas). No fim, Majdalanie volta a falar, porém finaliza a história em primeira pessoa. Um conto facilmente narrável em prosa. 

     Mas os princípios dos cursos de escrita são retorcidos, como se um professor tivesse dito a Mroué: “aceitamos que conte, tudo bem, mas nos mostre outras coisas”. Na primeira parte, enquanto narra a história, Majdalanie joga num aquário fotos que se apagam lentamente, até ficarem em branco – uma imagem desse aquário é projetada numa grande tela ao lado da atriz. Nas fotos, vemos ela e seu marido, o diretor. Na segunda parte, ela pendura as fotos em branco num varal, formando um quadrado, enquanto as tabuletas em árabe são postas sobre o aquário e projetadas na tela. Por fim, a atriz se esconde diante de uma câmera e sua imagem é lançada sobre as fotos em branco.      

   Esses procedimentos são o remédio e o veneno da montagem. O que, a princípio, acrescenta em potência e conteúdo ao texto, que por si já é divertido e poderoso – Majdalanie é uma grande narradora –, nos “movimentos” seguintes acaba por se repetir. Insiste-se nos símbolos do desaparecimento – a história em branco, a sobreposição da imagem, o sentido em desaparecer – e em certo momento isso é redundante. Nada, entretanto, que afete a fluidez do todo. Não existe solução. A mensagem foi recebida: a história se repete, primeiro como farsa, depois como tragédia.

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2 respostas para Mas mostre outras coisas

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